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Tu importas

Tu importas

25
Mar20

As minhas pessoas

Rute Borges

Sabe bem quando encontramos pessoas interessantes, dizem alguns "a nossa santa se cruza", daquelas pessoas que a conversa flui, que nos puxam, assim como acontecia na meninice, nos agarravam pela mão e inventávamos castelos e piratas, cavaleiros e dragões com um monte trapos e paus que se enchiam de pó não fossemos nós os maiores imaginários do mundo. Gosto quando conheço gente assim, que fala que nem gente, sorri que nem gente, olha que nem gente, nos olhos, assim olho no olho, assim real, cheios de vida dentro do peito, de um mundo tão rico de tanto que vivem e sonham viver. Gosto de pessoas que vivem, que se dão e nunca adormecem na vida. Pessoas que nos ensinam que temos tanto para aprender e que nenhuma porta se fecha definitivamente mesmo quando a teimosia a enferruja. Gosto de rugas na cara e magia no coração. Gosto de gente que cheira a gente e que me transforma todos os dias em alguém melhor. Gosto da minha gente. Daquela que não precisa de ter, mas de ser. E como ouvi há muito tempo: "eu quero mais é ser feliz".

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23
Mar20

Cascas e outras

Rute Borges

Dias cinzentos, dias menos bons, onde se tiram energias onde já não existem. Cansada, exausta, retirei a palavra luta do meu livro de cabeceira, rasguei mesmo a página, amachuquei e coloquei na parte mais funda do lixo. Porque que raio inventaram essa palavra que só nos cansa? A vida não pode ser isso, a vida é mágica, pelo menos foi aquilo que li no outro livro de cabeceira quando ainda agora tinha começado a juntar as sílabas. Direita, esquerda, espera vai em frente, volta atrás que por aí não tem saída. Percorrer, contornar, lá não falava nada de machados e martelos, era tudo fluido. Quem manda pegar no martelo? Dá a volta e contorna, quem sabe o muro não termina logo ali junto à cabeceira que falava de viagens e não de palavras que se escondem debaixo de cascas de laranja. 

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11
Mar20

Era uma vez um mágico...

Rute Borges

...que todos os dias entrava no seu escritório de paredes brancas, sentava-se na sua cadeira preta e olhava para o papel branco com a frase: "a vida pode ser (espaço) ou (espaço), tu escolhes!" Ele agarrava no seu carimbo redondo e zás, zás, colocava o M em cada espaço e sorria, trabalho perfeito. Mudava a folha e lá estava outra e o som ouvia-se novamente: zás, zás e logo de seguida um sorriso. O dia continuava assim acompanhado do sorriso a cada duplo som. Agora ouvia-se um som diferente, o apito de final de dia. Arrumava o carimbo e as folhas com espaços na gaveta e corria para casa. No caminho apanhava o metro e sentava-se na janela junto ao senhor de fato preto, aquele que o ensinou que não só os mágicos o vestem. Os óculos o fizeram denunciar, nenhum mágico os usa, apostava que seria feiticeiro, todos guardam segredos e fórmulas e... óculos. Não percebia o fato preto, mas havia-se resignado. A senhora de cabelo branco nunca lhe trouxe dúvidas, entrava todos os dias de guarda chuva, fizesse sol ou chuva incapaz de enganar um mágico! No momento da saída imaginava o caminho que percorreriam e sorria. A barriga já dava horas quando a chave rodava a fechadura. Lá dentro a sua esposa imaculadamente vestida de branco o esperava no meio de tachos e panelas, cozinhava maravilhosamente, um dia fazia arroz de pato, outro dia pato com arroz. Ninguém cozinhava assim, pensava ele ao lhe dar um beijo de boa noite. Os filhos corriam para ele com um beijo e o relato de um dia perfeito, sentavam-se à mesa, agarravam nos talheres e comiam cada garfada até o prato ficar sem resto para contar história. Lavam os dentes e iam para a cama, assim como ele, precisavam de descansar de um dia magnificamente perfeito. Vestia o seu pijama de riscas, olhava a sua esposa que já trajava a camisa de noite branca e dizia-lhe: tens de descansar ao mesmo tempo que lhe dava um beijo na testa de boas noites. Assim era todos os dias até àquela noite em que ela lhe perguntou: trouxeste magia? Não entendeu. Não era isso que acontecia todos os dias? Como ela não entendia que a cada carimbo era isso que ele desenhava para ela? Ela respondeu: tu escolhes o M errado todos os dias e sem o outro M já não consigo fazer desenhos de outra cor. Olha para nós, precisamos de ti, tu és o mágico! Olhou para ela, deu-lhe outro beijo na testa e pensou: "as mulheres são seres tão insatisfeitos..." Sorriu e pensou: "zás, zás... Perfeito."

*Texto do meu livro "Paladares da Vida"

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03
Mar20

Resiliente

Rute Borges

A brotar no alcatrão, são eles selvagens, pertencentes ao Reino Fungi. Têm propriedades medicinais utilizados tradicionalmente por diversos povos do mundo. São assim como nós, resistentes e resilientes, atravessam as mais diversas dificuldades mas fazem por se fazer nascer e renascer. Admiro-os, conseguem sobreviver sem cuidado, sem amor, sem grande combustível e sem proteção. São livres. São únicos, são como nós. Um Amém a estes seres especiais que nos mostram um mundo de possibilidades. 🖤

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28
Fev20

Desencontros

Rute Borges

Estavam ambos a tomar o pequeno almoço numa pequena mesa no café da esquina. Ela segurava o telemóvel sorrindo e enviava mensagens no WhatsApp. Do outro lado da mesa, ele por seu lado, apenas com uma mão segurava o maior dos troféus, enquanto olhava para o ecran brilhante onde se via uma aplicação aberta: WhatsApp. Ainda pensei, será que não sabem conversar já um com o outro quando os olhares tem de se cruzar? Pensei mais um bocadinho e retirei uma conclusão, estariam a conversar com o colega de trabalho com o qual irão almoçar. Cada um com o seu. Acredito que se pela hora do almoço, os procurar nos restaurantes, estarão cada um com o seu aparelho eletrónico aberto na aplicação WhatsApp, mas desta vez a conversarem um com o outro. A dizerem que tem saudades e quanto gostavam de estar perto a dividir uma refeição. Uma pergunta se coloca, quando for hora de jantar e estiverem um com o outro, na aplicação WhatsApp, estarão a falar com quem? Talvez com quem irão tomar o pequeno almoço... Encontros e desencontros desta era tecnológica. Porque será que queremos sempre conversar com quem está ausente e não aproveitamos verdadeiramente quem nos nossos olhos pode olhar?

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27
Fev20

Em construção

Rute Borges

Não sou uma pessoa de passado nem de futuro, sou uma pessoa de presente arrastado... A paixão é o sentimento dominante na minha vida, quando ela surge, seja pelo que for, torna-se algo que me faz respirar, fazer por, mexer-me, querer mais e melhor, alimento-a, rego-a, envolvo-a e ela passa a fazer parte do meu ser. Tudo se complica quando por alguma razão nos magoamos, eu e a paixão que vive em mim. Converso com ela, muito, damos cambalhotas juntas e depois de muitas lágrimas, passo a viver com o suporte de vida para tentar fazê-la recuperar das várias paragens cardíacas que vai tendo... Tenho dificuldade em a deixar ir, arrastando-a ao colo mesmo quando ela já quase não respira e sofre... Poderia praticar eutanásia, mas mesmo depois de 42 anos, ainda não o consigo fazer... Depois de ela partir e ficar no passado, tudo fica tranquilo novamente mas até passar a linha, vamos claudicando doridas e cansadas... Tudo deveria ser como as andorinhas... Estão felizes e partem felizes, simples assim..

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24
Fev20

Bruxa

Rute Borges

Quando somos pequenos temos muitos sonhos, desejamos ser tanta coisa e uma dela é ser crescidos. Que tontice, que graça tem ser crescido? O meu sonho é ser bruxa, só elas têm uma vassoura voadora... Poderia sair de madrugada pela janela e ver o mundo por cima dos prédios, olhar para baixo de longe, mudando a perspectiva de quem ao mundo não está colado... Não sei se quero ter uma verruga, mas quero sentir o vento na cara e reconhecer cada luz na distância. Viver despenteada e escolher o melhor chapéu preto, daqueles em bico que só elas usam, condizem com a vassoura. Esta noite vou sonhar contigo, talvez me leves bem alto aquele sítio onde juntas fazemos a festa, e rimos até doer a barriga, sabes como é? Eu mostro-te como gosto de ver o mundo e tu ensinas-me os loopings, só eles fazem-me rir como as nossas gargalhadas. Bons sonhos e até já

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19
Fev20

Ela saiu a correr do bar e deixou tudo para trás,

Rute Borges

as saudades do tempo que poderiam ter vivido, os olhos molhados que pousam na foto que a parede cansada ainda mostra. Não desistiu, ao contrário do que as vozes da ignorância gritam, escolheu o caminho que teimam em afirmar de louco. "Loucos são vocês, aí sentados nesse bar, a olhar a mesma foto e a falar das saias curtas e olhos vazios que desfilam." Ela queria mais da vida. "O que queres mais?" " Nunca irias perceber, pois apenas vês o que as palas te permitem ver. Fecha-te na caverna, pois só saberás viver no mundo das sombras, nunca aguentarias ver o sol que busco ver. Tu aí és senhor, pedir-te mais é loucura, minha. Só não me peças para ficar, preciso de sentir o sol, a chuva, o ruído, a magia, a fantasia, o vento. Não entendes pois não? Tal como não entendo como te chega ficares aí..." E essas foram as suas últimas palavras que se ouviram em eco naquela sala vazia ou cheia, depende de quem a olhava...

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18
Fev20

Ela

Rute Borges

Quando deixaste de ser tu? Em que momento a menina esquimó de cabelos e pele escura deixaste de ser tu? Em que passo te distanciaste dela? Em que escolha a sufocaste? Em que noite a abandonaste? Em que buraco a escondeste? Em que nevoeiro a perdeste? Com que tinta lhe roubaste as impressões digitais? Em que esquina lhe furtaste a segurança? Escuta, ela está a chamar por ti... está perdida e tu és a adulta da parelha, tens de a encontrar. Leva um cobertor, ela diz que tem frio. Passa na mercearia e leva laranjas, ah e um girassol, ela adora, lembraste? Fá-la sorrir. Ela precisa de sorrir. E do cobertor e das laranjas e do girassol. E de ti. Não precisas dela? Já nem sabes o efeito do girassol.

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